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Ele é Amazonense / Mauesense

Distinguir um amazonense típico, ou melhor ainda, como perceber quando além do Amazonas ele é nativo de Maués é o objetivo deste texto, que foi atualizado e alterado a partir de um outro texto anônimo que circulou pela Internet por alguns anos atrás.

Se você for de fora (forasteiro como se diz em Maués) é mais fácil perceber alguns sinais. É claro que são pistas generalizantes e que há exceções para mais ou para menos. Depende muito também de qual Estado nasceu o observador. Se for cearense por exemplo, muito pouco irá notar. Neste caso agora, quem escreve é um baiano, com mulher e filhos felizmente e orgulhosamente amazonenses de Maués.

Se você for amazonense e principalmente maueense, não fique zangado quando não se reconhecer com um desses sinais – isto é normal para qualquer filho de qualquer estado brasileiro. Outra coisa, me desculpem os puristas da ortografia mas, “mauesense” é invenção do Aurélio – o charme de quatro vogais juntas com o “e” dobrado soa bem melhor. Portanto, pelo menos aqui, quem nasce em Maués é MAUEENSE, e ponto final.

Uma característica bem amazonense é falar com transmissão táctil. É como se ele precisasse segurar o seu ombro ou seu braço para que se sentisse entendido. Isto obriga então você usar também o mesmo recurso se quiser ser ouvido. Tem que pegar. Pode ser no braço, no ombro, no cotovelo, mas tem de pegar. A linguagem corporal é tão importante para o amazonense quando o descanso o é para o baiano, a esperteza é para o carioca e a desconfiança para o mineiro.

Se quiser fazer média com o amazonense – fale mal dos paraenses e vice-versa. Ouça com atenção as hilariantes piadas de gozação com o povo do Pará que cativará seu amigo amazonense .
Beijinhos de cumprimento são sempre dois (como na Bahia). Os paulistas têm de aumentar um e os gaúchos têm de reduzir um. Isso pode causar uma série de beijos órfãos no ar para aqueles que estão em fase de adaptação. O pegar e o beijinho do amazonense não devem ser entendidos, grosso modo, como invasivos, mas como parte mesmo de sua enunciação, parte do sentido do dizer.

Outra coisa: amazonense é apontar com a boca. Pergunte a um amazonense onde está algo e ele, muito provavelmente, em vez de levantar a mão e apontar, fará um biquinho em direção à coisa procurada. Aliás, um biquinho não, um beicinho.

As mulheres do Amazonas são muito especiais. Não é a toa que Orellana descobriu a região através delas e batizou de Terra  das Amazonas. São suas mãos morenas e delicadas que fazem o processamento industrial do maior e mais moderno parque de produção de eletrônicos e duas rodas do Brasil. São maioria as mulheres amazônidas que são cabeças das famílias. Ë muito comum conhecer a mulher que sustenta o marido, filhos e parentes chegados do interior. Outra característica da amazonense é sua iniciativa na captura do homem que selecionou para a sua vida. Os visitantes que chegam aqui, principalmente as mulheres, são impactados por esta  modernidade da iniciativa, natural das amazonenses – o movimento feminista aqui não faz sentido para este aspecto, elas já nascem com a altivez de quem não precisam de lições para aprender a liberdade. E como são belas…

Política, em Maués tem que decidir pelo lado de votar, se você for maueense sei que já deve estar investigando pra saber qual o lado do nosso site, é dos Esteves ou do Michiles? Mas se você for visitante de Maués, se prepare, vai ser muito solicitado a escolher o lado político. Ë como se fosse a escolha de um time de futebol e não se admite não ter admiração pelos dois, nem Cobra Grande nem Cururu como os dois lados se identificam. – E então maueense , já sabe qual é o meu lado?

Clássico de futebol no Amazonas não é travado entre o Nacional, Rio Negro ou S. Raimundo, nem ocorre no bom e bonito estádio do Vivaldão, como acontecia a mais de vinte anos atrás. O clássico amazonense acontece mesmo  é nos televisores espalhados nas casas e telões das praças de alimentação da cidade – Flamengo x Vasco. Se você é internauta  e nunca veio ao Amazonas acredite, a festa de um campeonato tem direito a fogos, trio elétrico, carreatas, bebedeiras, manchetes na primeira página e tudo mais que também ocorre lá distante no Rio de Janeiro. A distinção do seu estado, o maior do Brasil, não é o forte do amazonense, ou eles estão globalizados a muito tempo. Sua bandeira parece a americana estilizada e resiste até hoje sem ninguém que proteste ou proponha uma mais coerente com a grandeza do estado do Amazonas ou com o país. Talvez a numerosa presença de imigrantes no estado justifique esta característica. A manifestação cultural popular mais bonita e bem elaborada do país, o Boi-bumbá, originária do Nordeste, eclodiu muito recentemente na ilha de Parintins, no Amazonas, se compararmos com as manifestações similares em outros estados. Afinal o estado ainda é novo e por isto sua cultura popular e suas manifestações estão em plena formação. O carnaval que esperava-se a inclusão da cultura riquíssima indígena na influência das etnias do branco e do negro como é comum no Rio, Bahia e Pernambuco. Não é – é a repetição do modelo carioca. Ouve nesta década o surgimento das Bandas em Manaus,mas o modêlo de uma banda de música com o pessoal bincando com músicas e cartazes com sátiras aos políticos e costumes só restou com a Banda da Bica. As escolas de samba são tão luxuosas e bonitas quanto as do, desculpem a redundância, do Rio de Janeiro.

O amazonense não é  mesmo chegado a respeitar os sinais e leis de trânsito (como aliás é também em todo norte e nordeste do nosso querido Brasil). Mas há os tais sinais típicos do amazonense. Há até mesmo uma cumplicidade com os guardas de transito (que é claro, são amazonenses também). Faixa de velocidade, então, vixe! Nem pensar. Muitos até fazem da faixa uma espécie de guia para centralizar seu carro, como fazem os aviões. E vá tentar andar na faixa? Você é considerado o pior motorista do mundo, com direito a olhares feios e até alguns xingamentos. Também não é a toa que os maiores índices de sinistralidade são das cidades de Manaus e Belém – por isto as taxas de seguros são mais caras nas duas cidades. Por outro lado, se seu carro quebrar, logo aparecem muitos amazonenses querendo dar uma mãozinha. Já aconteceu várias vezes comigo, estar em um engarrafamento e o manauara que eu nunca vi antes chegar do lado qual me dirijo e ajudar com informação, espontaneamente! “Teve uma batida lá defronte ao DB, é melhor pegar a Valério”. – Obrigado!

Se precisar de orientação para chegar a um endereço ele dará, mas cuidado, ele faz o mesmo se também não souber… é como se ele não admitisse não poder ajudar.

Amazonense é solidário. Muito. Pergunte e ele responderá. Peça e ele lhe ajudará. Dê trela e ele grudará. Sendo maueense é mais ainda, quando você menos espera ele já está abrindo sua geladeira ou inspecionando a panela.

O amazonense é muito caloroso. Não só pelo calor que faz em Manaus, mas porque facilmente puxa papo e se integra a um grupo. Basta uma possibilidade de entrada na conversa e..zapt! estamos dentro, na maior intimidade. Isso pode causar certo choque para as pessoas do sul e sudeste, mais reservadas no assunto amizade. É mais difícil “aprochegar-se” em São Paulo do que em Manaus, definitivamente.

Compromissos com horários é normalmente desprezado pelo amazonense. Ele confunde o horário combinado para chegar com o horário dele começar a se preparar para sair. Muito comum também não cumprir e nem avisar que nem vai chegar. Com prestação de serviços chega a ser incrível. Uma oficina pode marcar a devolução do carro para amanhã, para amanhã, para amanhã, para amanhã, e assim passam dias de idas e vindas sem solução – se você for novo no estado, enfrente com bom humor e tenha paciência, não é por mal. No início você sofre muito, desfaz boas amizades, até aprender que pode falhar também e ninguém vai ficar zangado.

Por falar em outros estados, é difícil imaginar férias ou aposentadoria de amazonense em outros lugares que não seja em hotéis e apartamentos de Fortaleza – praia do Futuro e do Rio de Janeiro – a manjada Avenida Atlântica. Ele passa anos e anos sobre as praias do Parnaíba e São Luiz quando voam pra Fortaleza; pergunte ao amazonense se ele conhece esses lugares. E quando eles se encontram na Praia do Futuro ou em Copacabana, mesmo sem se conhecerem  antes fazem aquela farra!!! A falta de conexão por estradas faz o Amazonas ficar ilhado dos outros estados e talvez isto explique o que equivocadamente achamos falta de curiosidade ou de criatividade na hora de fazer o roteiro de viagem.

Ah! Cuidado, não associe o biótipo indígena ao amazonense, mesmo que sua pele seja morena, tenha cabelos pretos e lisos e os olhos puxados. É uma ascendência não reconhecida muito bem – como era um assunto mal resolvido com a afro-descendência há 40 anos atrás na Bahia, Pernambuco, Maranhão, Rio de Janeiro, etc.

A objetividade do amazonense no telefone é impressionante. Não se chateie se ele não se despedir antes de desligar o telefone. Com o tempo você entra também na onda e aí, nada de Tchau ou Muito Obrigado. “João está aí – Não e thum! Desligam-se os telefones.

Noves fora essas questões de relacionamento, há a questão da língua mesmo. Algumas palavras e expressões que realmente levam algum tempinho para que sejam dominadas e internalizadas. O maueense acrescenta a sílaba “u” antes da palavra não, exemplo, “Você gostou do que escrevi aqui sobre vocês? – U-não !!!” . Gosta muito também de fechar a pronuncia do “o” por exemplo: “Vu de canua pra Funte Bua”. Nas frases coloca naturalmente o objeto na frente do sujeito e do predicado, exemplo: “A cunhantã, traz aqui” ou “De canua ontem a gente passeou”.

O amazonense não consegue pronunciar as sílabas “nio” e “nia”, por exemplo: aluminho entenda alumínio, Tanha entenda Tânia e se ouvir “junho” pode ser o mês ou o nome Júnior.

O maueense trata as clãs familiares acrescentando “sada” (pronuncia-se “zada”) ao nome mais forte ou mais característico da família. Por exemplo “Ta tendo festa na Santozada”, “A onçasada está braba” ou na “Na Salesada só tem gente bonita”. “A Paxicosada foi toda pra Manaus, fazendo falta a Maués”,  (no caso “onçasada” se refere ao apelido do respeitável patrono da família Magnani). 

Enfim, parente, aí foram as expressões e dicas que “esculhi” para ajudar a “vucê” compreender um “puvo maravilhuso. E já mivu… Ma rapá”. 

1 comentário para Ele é Amazonense / Mauesense

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