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Boca de Silício

Entrevistado:  Jorge Sales (J)

Repórter: Pedro Ivo (P)

 P: Tio Jorge, o que te trouxe ao Amazonas?

J: Bom, antes de tudo, a minha benção ao sobrinho. Eu vim ao Amazonas pela primeira vez em turismo, e surgiu uma oportunidade de conhecer Maués através do falecido Jaime Benchaya. Isto foi em dezembro de 84.  Embarquei numa viagem de barco, O GUMERCINDO DIA, dormindo numa rede, numa viagem que me assustou muito no início. A fragilidade da embarcação contra a grandeza daquele rio enorme, sujeita a temporais. Ali era à mercê do rio. Chegei soba a chuva e conheci este lugar especial, na beira do rio, onde passei por volta de 10 dias. Quando retornei das férias para Salvador já estava encantado, já tinha a intenção de voltar, e voltar pra morar.

 P: Lugar este que foi o primeiro contato que tive com o Amazonas, o senhor lembra como foi?

J: Lembro também que você chegou e eu te levei a Maués para que fosse o Gerente da fábrica de guaraná (Guaraná Maués) uma vez que eu estava muito assoberbado com o trabalho na Petrobras – Urucu e Maués durante a folga…

 P: Tio Jorge, o senhor não sente falta da Bahia, dos seus costumes, sua cultura, como você lida com isso?

J: Bom, primeiro eu disse como foi que eu vim para Maués, depois porque que eu quis vir… Então não foi somente um lugar bonito, foi o fato de ser um lugar bonito, mas com uma beleza singular, Maués tem uma beleza muito própria, por exemplo, Salvador e os lugarejos que ficam em torno do mar, com suas praias, seus mangues, que podem ser encontrados parecidos em muitos lugares, até fora do Brasil, como no Caribe Venezuelano, mas não se vê muitos lugares que se comparem com Maués São belezas somente encontradas aqui na Amazônia e isso me atraiu muito. O jeito de ser das pessoas, por se tratar de um lugar tranqüilo, onde as pessoas ficam com as casas abertas, as chaves nos carros… Um lugar muito seguro, até mesmo pela dificuldade de se chegar à cidade, que não é rota obrigatória pra chegar nos maiores municípios do Amazonas. Este isolamento da cidade também influencia negativamente a cidade, como por exemplo o cultivo de drogas, infelizmente.

 

P: Tio o senhor disse que veio a passeio, se apaixonou pela cidade, pelo povo, mas o que te fez criar raízes efetivamente?

J: A raiz vem em paralelo, pois conheci a minha esposa Graça com quem me casei e tenho 2 filhos. A questão profissional nunca foi motivo para morar lá, até porque sempre recebi convites para trabalhar em cidades maiores à serviço da Petrobras, ou até mesmo para Salvador, mas eu nunca aceitei, ou seja, eu não volto mais para Salvador, estou muito bem instalado aqui, principalmente porque minha esposa tem um trabalho que não permite uma transferência. Eu pretendo assim que me aposentar aumentar a freqüência com que vou a Salvador e curtir a minha terra, rever meus parentes, mas não penso em morar lá.

 P: E a fase de adaptação ao Amazonas foi difícil o choque cultural?

J: Eu sempre me adaptei com facilidade aos lugares, assim como numa música de Gil onde ele diz: “O melhor lugar do mundo é aqui, e agora”. Assim eu me identifico e sempre me adaptei bem e nunca me queixei dos problemas daqui, quando vou a Salvador detecto outros problemas e também não me queixo… Eu me adaptaria a qualquer lugar do mundo. Sempre procura ver as coisas positivas dos lugares de onde vou e as coisas negativas eu procuro apagar. Lembrando que eu não sou um bôbo que não vê, estou ciente dos problemas…. Uma coisa que eu posso destacar, é uma característica que persegue as cidades pequenas em sua grande maioria, que é a dificuldade de falar em política. Quando você está numa cidade grande o seu comentário é lançado a uma pessoa pública, e você exerce o seu direito de cidadão. Em Maués, por se tratar de uma cidade pequena, qualquer comentário que seja contrário às autoridades públicas, chegam aos ouvidos dessas autoridades e isso é encarado como se estivesse falando mal da pessoa e não do trabalho. Aconteceu comigo em Maués e por algumas vezes fui considerado como um estrangeiro, se intrometendo nas coisas da terra, e etc… Então isso é o que eu destaco como sendo motivo de dificuldade na minha adaptação.

 P: Tio, pros nossos leitores entenderem melhor o motivo desse choque de idéias com a política praticada aqui no Amazonas, o senhor pode nos dizer um pouco sobre as suas bases de formação, se já esteve em movimentos políticos e estudantis…

J: … É aquilo que você já sabe né, que já fui militante, fui detido quando era menor de idade, na época da faculdade continuei participando de movimentos, quebra-quebra, comíssios relâmpago, comíssios dentro de ônibus, tudo isso eu já fiz, porque havia uma ditadura que justificava tudo isso. E depois de tanto esforço, de tantos colegas nossos que morreram, a exemplo do Antenor, nosso parente que você não conheceu, veio a democracia… Aí eu me deparo em Maués com 2 famílias trocando de poder uma após a outra, sem nenhum avanço pra cidade, sem o desenvolvimento que a cidade permite, as pessoas votando como se fosse uma escolha de futebol “Sou Flamengo, sou vasco” ou “Sou Garantido, Sou Caprichoso”, ou seja, sem avaliar. Me deparo com a compra de votos que era feita abertamente… Tudo isso foi um choque para mim, não porque vim de Salvador, porque se viesse de Manaus que é uma cidade bem maior do que Maués e me deparasse com isto fatalmente seria um choque. Cidade Grande x Cidade Pequena. Quando cheguei era fevereiro de 84, final da ditadura com a eleição indireta de Tancredo Neves, assumindo em abril conforme a história que vocês já conhecem…

 P: Nós já falamos sobre a sua chegada no Amazonas, a fase de adaptação, que tal falarmos sobre o seu trabalho… Nos fale um pouco sobre a sua trajetória profissional, Tio Jorge.

J: Cheguei e fui convidado a trabalhar na REMAN. Então pedi minhas contas na NITROFERT em Salvador. Morava no bairro do Rio Vermelho, em frente ao mar, como você já conhece, e vim morar em Manaus, já que não podia ir pra Maués, já que trabalhava no expediente comum de trabalho. Na REMAN eu gerenciava a manutenção de Mecânica e Caldeiraria, até que surgiu Urucu, e a possibilidade de trabalhar com revezamento gerenciando a manutenção geral da refinaria, o que me deu a possibilidade de mudar definitivamente para Maués. Posteriormente vim trabalhar na Sede em Manaus, a minha esposa foi promovida e veio trabalhar na Capital também juntamente com meus filhos, e eu passei ao cargo de Gerente de Manutenção, trabalhando distante da refinaria. Recentemente, em Novembro/07, fui chamado para ser o Gerente de toda a base de operação de Urucu e isto que eu faço agora. Paralelo a isto tive outra atividade que era o Guaraná… Começou com pedidos dos colegas, e eu sempre comprava do Seu Samuel…

P: Pedidos informais…

J: … Isso… “Traga um guaraná de Maués pra mim, lá que tem guaraná bom” então inicialmente eu comprava do Seu Samuel e dava aos colegas, depois que eu vi que a procura estava muito grande e eu estava empregando muito dinheiro nos pedidos informais, passei a comprar do Seu Samuel e vender o guaraná. O negócio foi crescendo, eu passei a produzir o guaraná, e daí surgiu o Guaraná Maués. Chegamos a ocupar todo o mercado de guaraná em Belém, Manaus (com exceção do Carrefour) que não vendia guaraná em pó e em decorrência disso não comprava o nosso xarope. Exportamos guaraná pra Polônia, Nova York, Amsterdã, participamos de feiras nacionais, fomos entrevistados pela mídia local diversas vezes e até pela mídia nacional, como posso citar o programa da Globo Pequenas Empresas Grandes Negócios, Globo Rural, Revista ISTOÉ em entrevista de 3 páginas, falando sobre o ineditismo de ter uma fábrica com o perfil de uma grande empresa na sua forma de trabalhar, produzir, vender, divulgar na internet, com degustações, tudo isso era extraordinário pra eles por estar dentro de uma cidade encravada na floresta amazônica, isso que era extra-ordinário e gerou estas reportagens que foram feitas. Aprendi muita coisa sobre administração nesta época, aplicando os conhecimentos, não só estudando, apesar de estar sempre estudando como até hoje faço Pós-Graduação, mas ali foi uma forma de aprender na prática e foi muito boa essa experiência profissional no Amazonas, porque eu pude evoluir nas duas atividades, Industria de Guaraná e Exploração e Produção de Petróleo.

 

P: Ok, Este é um negócio verdadeiramente promissor, posso dizer por já ter participado ativamente das atividades. Deve ter sido muito difícil gerenciar um negócio inovador e que tomava muito do seu tempo e paralelo coordenar a manutenção de toda manutenção de uma refinaria…

J: É… Eu trabalhava coordenando no campo a atividade de manutenção, eu tinha 14 dias para ficar em Maués cuidando da fábrica. Quando estava afastado, a Graça tocava, mesmo que superficialmente. Quando eu vim pra Manaus, ser gerente da manutenção à distancia, eu vim trabalhar na Sede, então não dava pra gerenciar um grupo de pessoas tão grande e ao mesmo tempo gerenciar uma fábrica à distancia, então, não teve jeito, eu tive que vender essa fábrica. Vendi a pessoas de Manaus, o Sr. Ilton, que teve dificuldades com os negócios e não pode tocar direito o negócio, o que me deixa muito triste, saber que era uma fábrica promissora, que tem um nome no mercado… as pessoas ainda me ligam, insistem, e eu tenho que explicar que não é mais meu este produto, não sei como explicar nem tenho o direito de cobrar este tipo de informação para o dono atual do Guaraná. A única coisa que mantenho da empresa é o site, e através dele vocês estão lendo esta entrevista. Mais uma memória registrada neste diário, onde só posso contar com os amigos para mantê-lo vivo, pois não tenho tempo para atualizar… É difícil pra mim.

 

P: Tio, percebe-se o seu apreço pela fábrica, e que este não era o futuro que o senhor desejava pra ela. O senhor pensa em retomar atividades deste tipo no futuro?

J: Muito difícil. Embora hoje esteja trabalhando com o período de folga, não tenho mais a minha família em Maués, então eu não conseguiria me afastar da família na folga para tocar o negócio em Maués. Em Maués quero ter sempre a minha fazenda na barreira (Lago Grande), e por isso estou me desfazendo dos outros bens, mantendo apenas a casa além da fazenda, que é suficiente para que eu me divirta nas datas festivas. Como no carnaval de Maués… Eu gosto muito de carnaval!

 

P: Já que você tocou no assunto Carnaval… Soube que você trouxe influencias do carnaval da Bahia para Maués, com muito sucesso.

J: Bom… sucesso eu não diria… Sucesso eu diria que foi trazer uma inovação e ela permanecer no carnaval até hoje.. porque se tratando de volume de pessoa foi uma negação. Imagine as pessoas comprarem os abadas e não entrarem nos blocos, ficarem assistindo na arquibancada…. Isso pra mim é uma incógnita até hoje, pois quando eu perguntava para as pessoas sobre o motivo as desculpas eram as mais diversas e nenhuma ou poucas eram verdadeiras, porque elas não iam ao bloco. Mas o bloco nasceu porque eu vim de Salvador onde se brinca carnaval todo dia e em Maués tinha que esperar terça-feira para desfilar na escola de samba. Terça todo mundo tinha que ir embora pra chegar quarta em Manaus, então porque não na segunda? Outra coisa que eu pensei foi: “Porque não brincamos desde sexta?” Então me juntei com diversos amigos, inclusive do Banco do Brasil, (Dái vem a cor amarela do bloco Kandirú). Durante 5 anos insistimos neste conceito e deixei de ir ao carnaval em Salvador. Conceito de um bloco andando pelas ruas com um caminhão de som, quase um trio elétrico, e na época o Miguel Pacheco foi um grande entusiasta… Posteriormente começaram a incentivar os concursos e começou a ficar um carnaval muito regulamentado. Como não gostava disso, o meu bloco sempre desfilou sem concorrência, brincando pela rua.

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